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quarta-feira, 10 de março de 2010

Dib Carneiro Neto comenta "A MULHER QUE MATOU OS PEIXES E OUTROS BICHOS" (São Paulo, SP)

Oito motivos para ver esta peça

Por Dib Carneiro Neto




A MULHER QUE MATOU OS PEIXES E OUTROS BICHOS

No Sesc Paulista, Av. Paulista, 119, tel. (11) 3179-3700. Sábados e domingos, às 16 horas. Até 28 de março. R$ 12,00 (adultos), R$ 6,00 (meia) e grátis para crianças até 3 anos.

1) A diretora Cristina Moura instaurou em cena um tal clima de brincadeiras que é contagiante, do primeiro ao último minuto. Os personagens brincam de tudo: de dançar, de apostar corrida, de adivinhações, de imitações, até de dormir e, sobretudo, de contar histórias. E não pense que fica um ranço retrô de quintal de antigamente, não. É uma linguagem moderna, com DJs, guitarras, bateria, telões, uma iluminação impactante (assinada por Enrique Diaz).

2) A adaptação dos contos infantis de Clarice Lispector, com dramaturgia assinada por Isabel Muniz, além desse alto astral citado no item acima, é de uma delicadeza emocionante, principalmente quando os bichos da história morrem. Falar de morte para crianças sempre foi um tabu. Aqui, o tema flui sem pieguismo nem grosserias, de forma cuidadosa. Tudo isso sem abandonar trechos literais do livro de Clarice, ou seja, numa reverência à grande autora que não prejudica a modernidade da montagem.

3) O cenário é de um branco forte, que estoura na nossa cara desde que a gente entra na plateia. Há dois níveis, basicamente, isto é, dois andares. Mari Stockler, a cenógrafa e diretora de arte, deixou a cor viesse nos figurinos, nos acessórios. Decisão acertada.

4) As projeções nos telões são muito bem usadas ,nunca gratuitas ou apenas decorativas, ao contrário. O peixe projetado na roupa da atriz depois que ela conta que engoliu o bichinho do aquário é o ponto alto de integração e criatividade. Mas tem também uma galinha voando pela cidade grande, a multiplicação de baratas, balões, as nuvens quando os cães Max e Bruno se encontram no céu. Tudo nota dez, com vídeos criados por Paola Barreto e Andrea Capella.

5) O figurino de Marcelo Olinto é lúdico e brincalhão. Casa muito coerentemente com a proposta do espetáculo. Parece que estamos no quarto de umas crianças, um cômodo desajeitado, bagunçado, e que as crianças brincam de se vestir com o que há no armário dos adultos – algo assim. São peças superpostas no corpo de cada ator: saias, calças, fusôs, bermudões, camisetas, tudo um por cima do outro, com cara de brincadeira colorida.

6) Além da cena do peixe projetado na roupa da atriz, há outras que são antológicas. Como as meninas disputando quem é a princesa mais bela, mais rica, mais poderosa, relembrando todas as princesas famosas dos contos de fadas. É de um potencial de empatia com a garotada da plateia que nos faz arrepiar, nós, adultos. Outra cena, logo no início, de uma inteligência sutil, é quando a atriz delineia a fachada de uma casa no chão do palco, com fita crepe colorida, e deixa por último a porta. Só quando ela faz (deseha) a porta é que o espetáculo começa. Um convite (de uma sutileza criativa inacreditável) pra gente entrar na casa com eles. Arrepia também.

7) A trilha é agradável, com canções singelas e também muito lúdicas, que têm força até para sobreviver fora do espetáculo. A canção para a macaca Lisette, que acaba de morrer, é muito boa como retrato de um amor entre gente e bicho, como alento pra dor de perder uma amiga legal. A direção musical de Lucas Marcier, Fabiano Krieger e Felipe Rocha acertou também na decisão de usar a música já para recepcionar a plateia na entrada.

8) Coroando isso tudo, o trio de atores – Mariana Lima, Renato Linhares e Luciana Fróes – dá conta do recado com muita propriedade, frescor e cara de novidade. Não caem na linguagem tatibitate, mas são crianças quando é pra ser criança e muito adultos na hora de ser Clarice Lispector. O que não é pouco.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Dib Carneiro Neto no Estadão: "Destempero de um Ator" (excelente)


O destempero de um ator

Dib Carneiro Neto

4 de março de 2010

Por Dib Carneiro Neto Após meu primeiro post com minha carta de intenções, quero logo contar algo muito desagradável que presenciei no fim de semana. Frequento plateias de teatro infantil há pelo menos uma década e meia, e nunca fiquei tão chocado com o comportamento de um ator de teatro na plateia.

Sim, pasmem, um conhecido ator de teatro paulistano foi ver, no auditório do Sesc Paulista, no domingo chuvoso, a peça A Mulher Que Matou os Peixes e Outros Bichos (excelente, aliás, vou postar sobre ela em seguida!).

A peça começa. Uma mãe chama o ator, já sentado em seu lugar, no meio da plateia: “Moço! Moço!” E pede pra ele abaixar um pouco na poltrona ou mudar de lugar (sim, havia lugares vagos ao lado dele), pois as crianças não estavam enxergando direito, já que era um cara de porte físico grande.

Não vou contar a vocês o nome dele, não. Vou preservá-lo, por respeito a tudo de bom que já vi dele no teatro e sua trajetória de talento, inclusive na TV. Mas eis que o tal, em atitude de assombrosa arrogância, comenta em voz alta com seu acompanhante: “ – Mas era só o que me faltava!” E não parou por aí: como a mãe insistisse, ele se virou para trás por duas vezes e tascou: “- Cala a boca! Cala a boca!” E lá continuou, sentado, sem se preocupar com mais nada. Um ator de teatro!

Fiquei estarrecido com essa atitude pouco solidária dele com as crianças da plateia. Com a falta de educação, com o tom autoritário. Não consegui ficar sem escrever isso aqui, pois acho um exemplo infelizmente muito apropriado para o tipo de blog que quero manter no Portal do Estadão, um blog contra todo e qualquer preconceito que atinja as produções de teatro para crianças e jovens.

São atitudes assim desrespeitosas que contribuem para que ainda se mantenha, até hoje, esse ranço e esses diminutivos: teatrinho, pecinha, criancinha, palhacinho…

Opinem, por favor, se vocês se espantam, como eu, com essa atitude do tal grande ator ou se, ao contrário de mim, acham que ele tinha razão em ficar tão ofendido com aquela mãe, mesmo impedindo a visão das crianças atrás dele. Um ator de teatro! Numa plateia de teatro! Pra mim, é inadmissível que qualquer um de nós se recuse a colaborar com a visão do público mirim na plateia, ainda mais um ATOR DE TEATRO…

texto postado originalmente em: http://blogs.estadao.com.br/dib-carneiro-neto/