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sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Tio Vânia, do Grupo Galpão, último fds - SESC Vila Mariana (São Paulo)

Último final de semana de Tio Vânia do Grupo Galpão

Maurício Mellone* (aplausobrasil@aplausobrasil.com)


 fotos de Guto Muniz

Você tem até domingo para conferir a montagem do grupo mineiro para o clássico de Anton Tchekhov, no SESC Vila Mariana, com direção de Yara Novaes

SÃO PAULO – Um clássico é sempre clássico. E quando se trata de uma peça do escritor e dramaturgo russo Anton Tchekhov aí é imprescindível. Por isso que você não pode deixar de assistir a montagem do Grupo Galpão, de Minas Gerais, para o clássico de Tchekhov Tio Vânia (aos que vierem depois de nós), que encerra temporada de nesse final de semana no SESC Vila Mariana.
Com direção de Yara Novaes, o espetáculo do Galpão já percorreu diversos festivais de teatro pelo país, cumpriu temporada em Belo Horizonte e Rio, além da apresentação no Teatro Vascello (Roma/ Itália) antes dessa temporada paulistana.
Tio Vânia (aos que vierem depois de nós) não é o primeiro trabalho do Galpão com Anton Tchekhov . Em 2008, o grupo participou de um projeto que uniu teatro e cinema: sob direção de Enrique Diaz, o processo de montagem da peça As Três Irmãs, era o roteiro do diretor Eduardo Coutinho para o documentário Moscow.





Para 2012, o Galpão prepara o projeto Viagem à Tchekhov o qual será dirigido pelo russo Jurij Alschitz, com treinamento vocal com a diretora lituana Olga Lapina, a partir de contos de Tchekhov.
Tio Vânia retrata um momento na vida de uma família que vive numa decadente propriedade rural, no final do século 19. Mais do que a instabilidade financeira e a falta de perspectiva na vida daquelas pessoas, o texto de Tchekhov revela de maneira contundente a desilusão, a incompreensão com a passagem do tempo e o declínio físico e, principalmente, o fim dos sonhos para aqueles personagens. Mas nesse caos há também um fio de esperança no futuro. Vânia (Antonio Edson), com quase cinquenta anos, sente-se inútil, cumprindo um papel secundário na família e na vida. Esta constatação fica mais acentuada depois da chegada do viúvo de sua irmã, o Professor Serebriákov (Arildo de Barros) e de sua nova esposa, a atraente Helena (Fernanda Vianna). Ela atrai tanto Vânia como o médico Ástrov (Eduardo Moreira), amigo da família, que por sua vez é a paixão de Sônia (Mariana Lima Muniz), sobrinha de Vânia e filha de Serebriákov.

Destaque para o cenário de Márcio Medina, que também assina o figurino: cinco colunas são movimentadas pelos atores e interferem no tom e dramaticidade (elas podem ajudar a expandir ou sufocar a situação vivida em cena).


Roteiro:

TIO VÂNIA (aos que vierem depois de nós)
. Texto: Anton Tchékhov. Direção: Yara de Novaes. Tradução e adaptação: Grupo Galpão. Elenco: Antonio Edson, Eduardo Moreira, Fernanda Vianna, Paulo André, Teuda Bara, Mariana Lima Muniz. Cenografia e figurino: Márcio Medina. Iluminação: Pedro Pederneiras. Trilha Sonora: Dr Morris. Fotos: Guto Muniz. Produção Executiva: Beatriz Radicchi. Produção: Grupo Galpão.

Serviço:

Teatro SESC Vila Mariana            , Rua Pelotas, 141. Tel: (11) 5080 3000. Temporada: Sexta e sábado, às 21h e domingo, às 18h. Ingressos: R$ 24 (inteira), R$ 12 (meia-entrada para jovens de até 21 anos, estudantes, classe teatral, maiores de 60 anos, clientes Cartão Petrobras – até 2 ingressos – e força de trabalho da Petrobras – até 2 ingressos com a apresentação do crachá) e R$ 6 (comerciários). Horário de funcionamento da bilheteria – Terça a sexta das 9h às 21h30, aos sábados das 10h às 21h30, domingos e feriados das 10h às 18h30. Duração: 90 minutos.  Não recomendado para menores de 12 anos. Até 20 de novembro.

*Maurício Mellone é editor do Favo do Mellone

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Grupo Galpão apresenta Tio Vânia no Festival de Curitiba 2011 (PR)


Galpão usa Chekhov para fazer balanço

Maria Eugênia de Menezes - O Estado de S.Paulo

CURITIBA - O Galpão desceu da perna de pau para se olhar no espelho. Com Tio Vânia - espetáculo que estreia amanhã no Festival de Curitiba - o grupo mineiro parece sinalizar um desvio de rota. Sai do território do teatro popular, quase farsesco, onde trafega com segurança há décadas. E parte em direção ao desconhecido, tateando um universo praticamente inexplorado pela companhia: os dramas de densidade psicológica.

Não é por acaso que o encontro com a obra de Anton Chekhov acontece a essa altura do caminho. Para um grupo às vésperas de completar 30 anos, formado por atores que chegam aos 50, montar Tio Vânia pode adquirir um significado adicional. Talvez não desponte em cena apenas a história de Vânia, o homem amargurado que avalia as escolhas que fez ao longo da vida.

Com o texto russo, o Galpão também põe a si mesmo sob escrutínio. "A peça fala dessa relação dos homens com o tempo, esse momento de rever o que fizeram. Agora, é como se o próprio Galpão fizesse um balanço", avalia Yara de Novaes, diretora que assina a montagem.

Foi com encenadores convidados que a trupe mineira construiu a sua história. Nesse quadro, a própria escolha de Yara para conduzir o novo trabalho já é um indicativo do rumo que o Galpão queria tomar: Um entendimento mais profundo do trabalho do ator, um mergulho mais vertical nas relações com as personagens.

Antes de fincar o pé no mestre do realismo, o grupo sondou outros autores, como o inglês Harold Pinter. Também flertou com a releitura muito particular que o argentino Daniel Veronese faz de Chekhov em Espia a uma Mulher que se Mata. Mas acabou decidindo-se por abraçar o original.

Se pensarmos que o último trabalho do Galpão foi Till - uma retomada de suas raízes de teatro de rua -, a obra atual soa quase como contrassenso. Mas vale lembrar que o movimento de escape já se delineava antes, pelo menos desde que Eduardo Coutinho filmou Moscou. No documentário de 2009, o cineasta revelava o encontro da companhia com As Três Irmãs. Em jogos de improviso, flagrava-se o conflito latente entre real e ficção, dissolviam-se os limites entre o ator e o papel que representava.

Para fazer Tio Vânia, as biografias dos intérpretes também foram convocadas na sala de ensaio. Essas experiências pessoais, porém, não chegaram a subir ao palco. A opção foi pela integridade das personagens chekhovianas. O que não significou, ressalva a diretora, uma adesão incondicional a leitura realista que se faz de Chekhov. "Mais do que realismo, é verdade o que vemos em seu teatro", diz ela.

Em sua cenografia, Marcio Medina não reconstrói uma casa provinciana russa. Concebeu apenas colunas, que se movem delimitando os espaços. "Não se trata de ilustrar. É um cenário mais dramático, que serve para sublinhar sentimentos, como a opressão", ele explica.

Outra tentativa dessa versão foi desmistificar a carga de melancolia que aparece colada ao dramaturgo. "Essas personagens têm suas angústias, mas mesmo que fracassem há sempre um impulso de vida", comenta a diretora.

Se olharmos por esse viés, Tio Vânia não é só o retrato de um homem que fracassou. O que desponta dessa fábula de frustração é também a necessidade de se reinventar. E talvez esteja aí a chave para entender o que o Galpão quer agora: conceber, para si, um futuro.

GRUPO GALPÃO

A caminho dos 30 anos

Criado em 1982,em Belo Horizonte, o grupo Galpão tem sua origem no teatro de rua e sempre se mostrou envolvido na pesquisa das linguagens populares. Estreou com o espetáculo E a Noiva Não Quer Casar, um trabalho de criação coletiva. E alcançou projeção internacional dez anos depois, em 1992, com Romeu e Julieta, adaptação da obra de Shakespeare dirigida por Gabriel Villela.