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quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Recordar é Viver, com Sergio Brito, estreia, CCBB-Rio (Rio de Janeiro, RJ)


Sérgio Britto estreia 'Recordar é Viver', no Rio


Britto, aos 87 anos, e Suely Franco, aos 70, voltam a atuar juntos nos palcos cariocas

 Roberta Pennafort

RIO - Sérgio Pedro Corrêa de Britto já foi um rapaz tímido, que estudou Medicina só para satisfazer os pais e que demorou para confiar no próprio taco como ator. Suely Franco Mendes sempre foi despachada, brincava de ser atriz desde criança e, quatro décadas antes de encarnar a doce Dona Benta, fez babar muito marmanjo como uma das Certinhas do Lalau.

Guga Melgar/DivulgaçãoSérgio e Suely vivem marido e mulher na velhice às voltas com o azedume da vida em famíliaA amizade entre os dois atores começou em 1962, quando trabalharam juntos pela primeira vez na TV (no Grande Teatro Tupi) e no teatro (na estreia de O Beijo no Asfalto, escrita por Nelson Rodrigues especialmente para o Teatro dos Sete, da qual Sérgio fazia parte com Fernanda Montenegro e Fernando Torres, entre outros).

Quatro anos depois de Outono e Inverno, peça do autor sueco Lars Norén em que foram dirigidos por Eduardo Tolentino, o encontro se dá de novo, a partir desta quarta, 4, em Recordar É Viver, no palco do teatro II do Centro Cultural Banco do Brasil do Rio, ele aos 87 anos recém-celebrados, e ela, aos 70, e novamente com a direção do fundador do Grupo Tapa.

Mais uma vez, Sérgio Britto e Suely Franco vivem marido e mulher na velhice às voltas com o azedume que pode marcar a vida em família. Na segunda, eles conversaram com o Estado. Estão contentes, impactados pelo texto de estreia do jornalista Hélio Sussekind, trazido por Tolentino, e à vontade em meio ao restante do elenco: quatro atores com metade de sua idade.

"Estou mais uma vez com Suely como um casal que briga. Só que agora as brigas são mais diretas!", diz Sérgio. "A maneira de Tolentino dirigir é especial, ele trabalha junto com o gente", complementa Suely.

Para o ator, há 65 anos na ativa, é uma forma de se esvaziar de Beckett, depois da aplaudidíssima atuação em A Última Gravação de Krapp e Atos Sem Palavras 1. "A peça é apaixonante, o texto é danado. Tenho tanto prazer em fazer quanto tenho num Beckett. Eu chego igual, desprevenido, desarmado", explica.

"Depois de ganhar seis prêmios, um exagero, pensei: O que fazer? Beckett é o auge do teatro... Então desci um pouco. Estou numa situação confortável, de poder escolher o que fazer. Mas já lutei muito para não fazer besteira na minha carreira. Fiz o menor número possível."

A casa é de uma família de classe média carioca. Alberto e Ana têm três filhos adultos. O caçula, Henrique, dramaturgo pretensioso e fracassado, não trabalha, vive à custa dos pais, e preocupa a mãe por seu quadro depressivo. É um representante da chamada "geração canguru": tem 30 anos, mas não consegue saltar para fora e pavimentar o próprio caminho, talvez pelo excesso de amor que recebe em casa.

O pai é complacente. "Tem tempo!", pondera, quando cobram iniciativa do filho. A namorada de Henrique, Bruna, é vivida por Isabel Cavalcanti, atriz que dirigiu Sérgio fazendo Beckett e agora curte os ensaios com o companheiro de ofício.

O texto tem humor, mas é também melancólico, e emociona. "Não é um Strindberg, um Ibsen, é Brasil!", resume Sérgio. "Como é que alguém pode envelhecer tanto?", pergunta a personagem de Suely Franco, apontando a debilidade do marido. "A única coisa que fica mais bonita com o passar do tempo é o passado", ele diz numa briga, em resposta à obsessão da mulher por olhar slides antigos, de quando os filhos eram pequenos.

Há alguns anos, Sérgio reclamava que não havia papéis para atores de sua idade. Chegou a encomendar a Domingos Oliveira dois textos, que deram origem aos sucessos Sergio 80 (2006) e Jung e Eu (2003).

Hoje, vivendo um homem pelo menos 15 anos mais jovem do que ele, assiste aos colegas Fernanda Montenegro, Cleyde Yáconis e Leonardo Villar na novela Passione (o papel de Villar foi escrito por Silvio de Abreu para Sérgio, mas ele não cedeu à exigência da Globo para abandonar o programa na TV Cultura Arte com Sérgio Britto).

"Aprendi a procurar os papéis. Tudo que fiz de melhor no teatro, fui eu que produzi. Ano que vem, vou fazer O Canto do Cisne, do Chekhov, um velho ator que conversa com o camareiro."

quinta-feira, 27 de maio de 2010

O Teatro e Eu, autobiografia de Sergio Britto (Rio de Janeiro e São Paulo)



Sergio Britto lembra 65 anos de carreira em 'O Teatro e Eu'


Aos 85 anos, ator continua no palco e estreia nova peça em junho: 'Recordar É Viver' de Eduardo Tolentino

Ubiratan Brasil - O Estado de S. Paulo

O papel mais realista de sua carreira, o ator Sergio Britto enfrentou com a caneta na mão - durante seis meses, ele ocupou suas manhãs a se dedicar à escrita de O Teatro e Eu, autobiografia que será lançada hoje no Rio (na Livraria da Travessa) e segunda-feira em São Paulo (na Livraria Cultura do Conjunto Nacional). Trata-se de uma corajosa revisão de quem chegou aos 86 anos de idade, dos quais 65 de carreira na televisão, cinema e, principalmente, no teatro. Sem rodeios ou divagações. "Mas, se eu não tivesse escrito o primeiro capítulo exatamente como saiu, certamente o livro não teria nascido", conta ele ao Estado. "Cheguei a reescrevê-lo três vezes."

De fato, logo no primeiro parágrafo, Britto descreve como aceitou, em um impulso, trabalhar como ator em teatro universitário - era 1945 e ele, filho de pais amorosíssimos ("Minha mãe, Alzira, era dominadora, não da maneira cruel de Amanda de O Zoológico de Vidro, de Tennessee Williams, mas tão asfixiante quanto"), sentia a necessidade de se libertar. E, apesar de seguir a recomendação paterna e estudar Medicina, viu no palco o caminho da salvação.

Assim, aos 22 anos, faz sua primeira experiência teatral, interpretando Benvólio na montagem de Romeu e Julieta. Era o início de uma carreira marcante, participando de grandes encenações nas décadas seguintes.

A decisão, no entanto, não resolveu totalmente o problema. Britto sentia-se ainda preso à família, agora por motivos mais delicados. Ele explica que, até aquela época da iniciação teatral, tivera frustradas experiências sexuais. O problema chegara a um ponto insuportável que, novamente por impulso, ele cortou os pulsos, quando estava sozinho no quarto de hotel onde a família passava as férias. "Quando fiz isso, não pensei em nada, não houve desespero ou revolta contra alguma coisa que me incomodava e de que eu quisesse me livrar", escreve. "Perdi muito sangue, escorreguei no chão e ali fiquei, até que o meu amigo, a minha primeira paixão, chegou para me levar à praia."

Ele garante que não havia intenção de se matar. "Fora tudo um ato de teatro, o meu primeiro momento teatral de uma certa intensidade." Também foi um passo decisivo na afirmação de seu homossexualismo, opção que fora confrontada pelo pai, meses depois. O ator lembra que estava prestes a conquistar a desejada liberação. O momento definitivo aconteceu quando se formou em Medicina, em 1948. A formatura ocorreu em 2 de janeiro. Quatro dias depois, ele subiu ao palco como Horácio, na histórica encenação de Hamlet, que consagrou outro iniciante, Sergio Cardoso, no papel-título. "Esse não à medicina foi o definitivo cortar os pulsos, a libertação."

Vigor e coragem em cena - Memória é como poeira, acredita Sergio Britto. A camada mais inferior está assentada e praticamente nada se perde. Já a de cima é solta, facilmente levada pelo vento. "Como minhas lembranças do teatro são sólidas, precisas, não precisei fazer nenhuma pesquisa nem consultar anotações." O resultado é um impressionante passeio por boa parte da história do teatro brasileiro a partir da segunda metade do século passado.

Assim, aos pesquisadores, O Teatro e Eu oferece mais detalhes sobre a criação e os bastidores dos grupos e espaços cênicos mais importantes do País - como o Teatro Universitário, Teatro Brasileiro de Comédia, Arena, Teatro dos Doze, companhia de Maria Della Costa, Teatro dos Sete. Aos atores, Britto revela seus principais desafios, como os problemas de audição e com a voz, além dos obstáculos financeiros enfrentados especialmente quando a arte em geral sofreu com corte de verbas durante a presidência de Fernando Collor de Melo (1990-92). E, ao público em geral, detalha momentos particulares de sua vida.

"Decidi contar tudo na primeira pessoa, como uma confissão completa", comenta Britto, para quem ser ator exige uma paixão absoluta. "É necessário que o teatro seja a coisa mais importante de sua vida; se assim não for, teatro não é seu lugar."

A dedicação foi compartilhada por colegas com idêntica intensidade. É o caso de Sérgio Cardoso (1925-1972), ator enérgico em suas criações e que encenou Hamlet em 1948 ao lado de Britto. "Sérgio era frágil; depois me falou de um possível sopro no coração", narra. "Quando se emocionava no final dos espetáculos, desmaiava, e isso virou de uma certa forma um cacoete emocional." A morte repentina de Cardoso, quando fazia uma novela de TV, o deixou profundamente atordoado.

Ao longo da carreira, Sergio Britto descobriu as diversas camadas do fazer teatral. Ele conta que, em um primeiro momento, o ator acredita erroneamente saber de tudo; em seguida, descobre o que desconhece; finalmente, a terceira fase, mais realista, em que percebe a existência do que ainda precisa aprender e, pior, daquilo que não vai saber nunca, a terrível constatação das limitações. "Já passei por todas essas fases", observa. "Hoje, tenho a pretensão de saber quase tudo, mas nem por isso me sinto capaz de enfrentar qualquer texto, qualquer tipo de espetáculo."

Desafios. Mesmo assim, continua se aventurando. Como aconteceu na montagem de A Última Gravação de Krapp e Ato Sem Palavras 1, de Samuel Beckett, realizada no ano passado. A fragilidade imposta pela idade não foi capaz de impedir que ele exibisse vigor físico para expressar com imagens corporais a ideia da submissão do ser humano a um poder invisível. "Foi um dos melhores trabalhos da minha carreira, senti-me desconstruído em cena", comenta, lembrando ainda que, dos 16 prêmios conquistados, 6 foram por obras de Beckett.

A vida também é marcada por frustrações. Britto lembra sua tristeza por não ter interpretado um dos papéis que mais o apaixonam: Iago, de Otelo de Shakespeare. "Aquela vilania me impressiona e me seduz, mas nunca consegui vivê-lo no palco, o que já não será mais possível, por conta da minha idade", lamenta-se.

Engana-se, porém, quem vê sentimentalismo em suas palavras. Britto continua um homem de ação. Como prova, participa de Recordar É Viver, peça dirigida por Eduardo Tolentino, que estreia no dia 2, no Rio. "O teatro ainda me revigora."